domingo, 22 de setembro de 2013

Diante da Lei

Franz Kafka

Diante da Lei está um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o
guarda diz-lhe que, por enquanto, não pode autorizar-lhe a entrada. O homem considera e pergunta
depois se poderá entrar mais tarde. – ”É possível” – diz o guarda. – ”Mas não agora!”. O guarda
afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá dentro. Ao
ver tal, o guarda ri-se e diz. – ”Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição.
Contudo, repara, sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas
cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim”.


O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acessível a toda a gente

e sempre, pensa ele. Mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz
agudo, a barba à tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida licença
para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da porta, um pouco desviado. Ali
fica, dias e anos. Faz diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o
guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por
muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferença, à semelhança dos grandes
senhores, no fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo entrar. O homem, que se
provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita
tudo mas diz sempre: – ”Aceito apenas para que te convenças que nada omitiste”.


Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros

e aquele afigura ser-lhe o único obstáculo à entrada na Lei. Nos primeiros anos diz mal da sua sorte,
em alto e bom som e depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil e
como, ao fim de tanto examinar o guarda durante anos lhe conhece até as pulgas das peles que ele
veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda. Por fim, enfraquece-lhe a vista e
acaba por não saber se está escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no
meio da escuridão, um clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte está
próxima.



sábado, 18 de fevereiro de 2012

USE A MINHA BOINA


Por Paulo Coelho:
Durante cinco anos, o abade João ensinou ao noviço tudo o que sabia. No final do aprendizado, o noviço retornou de sua caverna no deserto, e ambos resolveram tomar chá juntos, apreciando o pôr do sol. João estava contente, mas o discípulo parecia triste:

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O SONHO DA PUREZA, DE ZYHMUT BAUMAN, E ACESSIBILIDADE.

 O SONHO DA PUREZA x ACESSIBILIDADE

Por: Luan Rodrigues dos Santos

Em seu texto, O Sonho da Pureza, Bauman relata a existência de um ideal, uma visão da condição que ainda precisa ser criada, ou das que precisam ser diligentemente protegidas contra as disparidades genuínas ou imaginadas. Com essa visão ele fala que o homem é quem intervêm na natureza, fazendo com que exista um mundo natural distinto, sendo “limpo” ou “sujo”. A sujeira é essencialmente desordem. Eliminá-la não é um movimento negativo, mas um esforço positivo para organizar o ambiente, segundo Mary Douglas.
De acordo com Bauman, expulsar os estranhos parece provir do mesmo motivo de preservação da ordem. Uma ordem que não adianta muito para a avaliação de várias formas da busca de pureza do ponto de vista de sua significação política e social e da gravidade de suas consequências para o convívio humano. A partir disso tudo que se projete a capacidade de minar padrões, seja uma pessoa, ou uma categoria de pessoas, torna-se a “sujeira” e é tratada como tal. Então é possível identificar, a exclusão de um grupo que apresentou uma dificuldade, ou fugiu dos padrões para a sociedade, a exemplo, os portadores de deficiência física, os cadeirantes e toda a classe de especiais.

SOBRE A ANALÍTICA DO PODER DE FOUCAULT, DE ANTONIO C. MAIA, E ACESSIBILIDADE.


Acessibilidade: curta essa ideia!

SOBRE A ANALÍTICA DO PODER DE FOUCAULT E ACESSIBILIDADE
Por: Luan Rodrigues dos Santos
Em seu texto, Sobre a analítica do poder de Foucault, Antônio C. Maia, discorre uma análise sobre os pontos de vista de Foucault a respeito do poder. O conceito de poder, como se estrutura, aonde se aplica, como e porque se aplica. O objetivo de Foucault, como descrito inicialmente no texto de Maia, não foi fundamentar uma teoria geral a respeito das relações de poder e como aplica-la, de uma forma geral, nas relações interpessoais existentes na sociedade. Muito pelo contrário, ele não pretendia sintetizar uma teoria geral e globalizante, e sim trabalhar a analítica de poder capaz de dar conta do seu funcionamento local, em campos e discursos específicos de diferentes épocas, segundo Antônio C. Maia.
Dentre algumas questões levantadas para um raciocínio inicial sobre o poder, surge a mais emblemática, e que se encaixa na questão da acessibilidade nos dias atuais: Como explicar a relativa tranquilidade do poder burguês em uma sociedade injusta e desigual, onde uma iníqua divisão de bens e poder vêm se perpetuando com certa facilidade?


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

ALEGRES E IGNORANTES, POR LYA LUFT!

"Estar informado e atento é o melhor jeito de ajudar a construir a sociedade que queremos, ainda que sem ações espetaculares"






Há fases em que, inquieta, eu talvez aponte mais o lado preocupante da vida. Mas jamais esqueço a importância do bom humor, que na verdade me caracteriza no cotidiano, mais do que a melancolia. Meu amado amigo Erico Verissimo certa vez me disse: "Há momentos em que o humor é até mais importante do que o amor". Eu era muito jovem, na hora não entendi direito, mas a vida me ensinou: nem o amor resiste à eterna insatisfação, à tromba assumida, às reclamações constantes, à insatisfação sem tréguas. Bom humor zero. Desperdício de vida: acredito que, junto com dinheiro, sexo e amor, é a alegria que move o mundo para o lado positivo. Ódio, indignação fácil, rancores e inveja – e nossa natureza predadora – promovem mediocridade e atos cruéis.